Praça da Paz

Se você caminha pela avenida principal que atravessa os bairros dos Bancários e Jardim Cidade Universitária irá se deparar com uma avenida bastante típica de capitais emergentes: asfalto novo, calçadas velhas. Andas pelas beiradas da avenida pode ser uma atividade por vezes irritante, você terá que disputar o espaço com outros pedestres, ciclistas e inúmeros carros estacionados de forma desordenada, possivelmente entidades sem corpos já não satisfeitas em já terem o domínio da parte asfaltada. Talvez essa lembrança específica esteja um tanto enlameada pelo rancor, mas o trânsito das capitais deixa suas marcas no inconsciente de uma pessoa mais impressionada.

A avenida principal dos Bancários não possui a estética vistosa da Epitácio Pessoa, mas não chega a ser popularesca e amundiçada como a Josefa Taveira.

Há supermercados de médio porte – na verdade minha vontade é de dizer que eles são grandes, mas sei que isso é apenas uma impressão bastante provinciana – envoltos de vidro, retos e coberto por cores primárias, as logos que diferenciam visualmente as marcas e os estabelcimentos maiores são simples e de fácil memorização. Há também mercados menores que não sucumbiram à concorrência das redes modernas e sobrevivem com uma clientela modesta, em frente a uma delas há uma placa de cimento grande, que parece ter sido fincada naquele fatídico lugar em meados dos anos 1990 no auge da era do videocassete no brasil. Em relevo, com uma fonte afilada, longa e de bordas arredondadas, no fundo dos caracteres se encontra o resto de tinta vermelha descascada e sem brilho coberta por uma espessa camada de poeira, poeira essa que vem sendo acumulada desde a época em que crianças deviam entrar na loja com fitas verdes rebobinadas e tênis Bibi, acompanhada dos pais que agora olham com a vista desgastadasos dados impressos em tela dos parentes distantes no grupo da família do whatsapp lembrando daquela época-boa-que-não-volta-mais através de fotos digitalizadas e disponíveis na nuvem inefável da internet. Apesar do atrito entre o tempo e a massa de cimento, de longe consegue-se ler o nome “MASTER VIDEO”, aquele objeto, menos que um objeto, aquela coisa é um algo desajeitado, deslocado no tempo, inútil e inconvêniente por suas proporções e por estar no meio da calçada já tão disputada, porém representa um marco memorial e uma gostosa contradição imagética, um patrimônio histórico não-tombado que certamente nenhum estadista decente sequer se preocuparia em pôr em análise.

Além dos grandes estabelecimentos existem outros de menor proporção que abrem, fecham, hora são igrejas, hora lanchonetes. E todas com ar condicionado. Sim, aqui na principal dos Bancários parece um pré-requisito, uma regra de conduta da conduta de classe média emergente que impera no bairro; na Josefa Taveira esse tipo de equipamento seria uma finesse desnecessária, aqui é um item decisivo para a permanência no local. E as farmácias… ah, as farmácias. Você sabe que está no Brasil quando encontra em cada esquina uma rede de farmácia. E sempre grande, bem iluminada, com um receptivo ar condicionado na entrada. Redefarma, Pague Menos, Permanente, Independente, a finada Big Ben, muitas vezes com mais de uma farmácia da mesma rede na mesma rua, uma farmácia em frente a outra e outras coisas que aparentam não muita razoabilidade.

Há outros dois estabelecimentos que se descatam pelos seus aspectos olfativos. O primeiro é uma lanchonete especializada em cachorro-quente; nunca, em nenhum outro lugar você irá provar um cachorro-quente tão comum quanto o de lá, mas não é esse o seu real destaque e sim o cheiro forte de carne moída e salsicha que exala por todo o ambiente e que tem sua potência ampliada pelo ar condicionado, se espalhando pela calçada e pelos estabelecimentos vizinhos. É uma rede de lanchonetes que sempre me intrigou, pois não possui nada de especial, seus lanches são terrificamente comuns, sua identidade visual nada marcante com cores primárias berrantes na fachada e no uniforme dos funcionários, dentro do estabelecimento há um visual ascético intercalado por mesas de metal, todos lá têm cara de evangélicos, desde os funcionários aos clientes, todos têm cara de que votaram em Bolsonaro. No fim, talvez seja exatamente isso que as pessoas realmente necessitem, de lugares neutros com comidas neutras e pessoas com cara de qualquer coisa, talvez seja esse o grande atrativo do local, todo esse aspecto kitsch com mensagens religiosas coladas na parede e tevês de diodo emissor de luz exibindo programa da Globo, enquanto estabelecimentos autoproclamados gourmet que habitavam aos arredores minguavam uma clientela risível. O outro local olfativamente marcante é o açougue que, apesar de seu visual agradável com tijolos e plástico vermelho, exala um odor de carniça e desinfetante, como se alguém limpasse o chão com um rodo feito de restos de carne.

Você irá encontrar esses e outros estabelecimentos no caminho entre o Carrefour  e o Shopping Sul, um lugar que, se não é visivelmente agradável nem grandioso, pelo menos não destoa do ambiente pequeno-burguês levemente kitsch e popularesco que emana da região, diferente do elefante branco de Mangabeira que parece fruto de uma pessoa que nunca veio à João Pessoa antes e pensou “Tenho que construir um monumental centro de lojas no meio de um lugar que ninguém quer estar” e todos ao seu redor pensaram “Realmente, é uma ótima ideia”.

 

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Gosto de esporadicamente rever esse fragmento de uma imagem maior de Coltrane e Adderley tocando para o álbum do Miles Davis “Kind of Blue”. Na imagem maior, dá pra ver o próprio Miles tocando trompete e o Bill Evans ao piano, mas particularmente esse fragmento da fotografia não me parece tão interessante e vívido.

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A distância e o foco impedem de ver com maior precisão o Miles estaria fazendo, além do que parece não ser nada significativo, os óculos de Bill e sua expressão sempre neutra de garoto de apartamento também ajudam a fazer com que a lateral direta da foto não tenha um grande significado.